Esclarecimentos

Meu post aqui sobre o feminismo rendeu bons comentários, aqui e em outros meios, sendo que alguns (ou antes, algumas) pareceram se ofender e revoltaram-se. Como os posts até semana passada estavam programados, só agora vou tentar esclarecer algumas coisas e espero ter sucesso nisso.

1. Em nenhum momento quis menosprezar a questão histórica do movimento. Falei dos dias atuais. Nos dias atuais eu acho "feminismo" um termo absolutamente dispensável.

2. Não quis criticar mulher nenhuma, nem a sexualmente liberal, nem a puritana. Disse que não concordo com mulheres que fazem isso ou aquilo e justificam "porque não é só os homens que podem". Seja como quiser, não precisa justificar nada. Ser algo só pra se impor contra algo nada mais é que birra e não liberdade.

3. Quando falei em ignorar o preconceito, não quis, em momento algum, menosprezar atos preconceituosos. Quis, simplesmente, dizer que boa parcela do que se taxa hoje como preconceito é fruto mais da suposta vítima do que uma intenção de ofensa de outra parte. Mas meu pensamento principal ao defender o menosprezo por atitudes preconceituosas foi o seguinte: "Não vale a pena se estressar com pessoas que tem a cabeça pequena e fechada o suficiente pra achar que são melhores que outras". Foi falha minha não me referir a agressões físicas justificadas pelo preconceito, mas aí realmente não há muito o que sugerir, há malucos por toda a parte. Entra-se aí a velha história: esperar justiça de alguma parte, buscando-a da maneira que melhor parecer aos envolvidos, porque realmente não vale revidar na mesma moeda, é se igualar a alguém cuja existência achamos altamente dispensável.

Aproveito pra agradecer aqui à Jéssica Costa, que criticar meu texto de maneira extremamente educada e aberta para um debate. Uma das coisas que ela falou foi o seguinte:

(...) Ana, não sei se vc soube da marcha das vadias, bom esse movimento começou no Canada pq uma aluna universitária foi estuprada e o policial disse que a culpa era dela, por que ela se vestia de forma a provocar os homens (com um shot), como se os homens tivessem o direito de fazer tal coisa, quando uma feminista se revolta por brincadeirinhas pequenas ela quer que se enxergue o tamanho da injustiça, para que essa mentalidade não se espalhe e não acabe por validar atitudes como a do policial. (...)

Como eu respondi a ela (tudo isso pode ser visualizado nos comentários sobre o feminismo), não sou contra um movimento de protesto. Numa situação ridícula dessas eu apoiaria o protesto, mas jamais me taxaria como feminista por isso. Por quê? Porque não acho que isso seja um movimento feminista e sim um movimento humanitário. Nada de homens contra mulheres, mas sim pessoas unidas em busca de justiça por um ato erradíssimo de outra. Estupro é crime, não contra a mulher, contra o ser humano, contra a convivência social, contra a individualidade e etc e tal.
Meu problema com o termo "feminismo" é o mesmo contra qualquer outro, seja político, ideológico ou seja lá o quê. Por que toda essa mania de se prender a definições? Por que essa mania de prender-se por palavras e descrever-se em meia dúzia de palavras definidas? Essa é uma coisa que eu nunca vou entender. Somos humanos e, até onde se sabe, racionais, mas preferimos nos prender a palavras que se autoexplicam em vez de se dar a liberdade de não se definir.
Seja a mulher que quiser, lute pelo que quiser, divirta-se da maneira que melhor lhe parecer, proteste pelo que lhe revolta. Não sou contra isso, muito pelo contrário, é disso que precisamos. O que eu acho é que, por exemplo, a partir do momento que eu me defino como "de esquerda" ou "de direita", estarei me prendendo aos candidatos mostrados pelo lado que escolhi e não terei oportunidade de conhecer um candidato do outro lado, que talvez não seja tão terrível quanto eu pense, que pode ter um pensamento parecido com o meu e tenha mais chance de realizar o que eu espero de um representante político.
Será que eu estou tendo algum sucesso de explicação? Posso continuar falando e falando sem conseguir me explicar, então vou tentar sintetizar tudo nessas últimas palavras:

Sou contra qualquer coisa que limite o ser humano: pré-definições que estabeleçam o pensamento e outros meios que dividam as pessoas em pequenos grupos em vez de um único que se respeite tanto pelos pensamentos quanto pelos modos de viver.

9 comentários:

Luna Sanchez disse...

Assim como concordo com a tua posição, que pra mim ficou bem clara no texto original, concordo com os esclarecimentos.

No caso da moça violentada, o protesto foi contra a violência, a estupidez e a ignorância, nada a ver com feminismo que, cá pra nós, embora tenha cumprido o seu papel histórico, também acho que não deveria mais ser citado hoje.

A nossa geração, Ana, está vendo nascer um tipo de macho tão cheio de melindres e questões sentimentais frágeis, bobas e tão facilmente contestáveis que "lutar por direitos iguais" aos deles equivale a retroceder.

Melhor deixar quieto e torcer pra encontrar algum homem de verdade, que honre as calças que veste e que, com a graça de Deus, ainda deve existir por aí.

;)

Beijos.

Tita disse...

Muito bom! Realmente, a luta deve ser pelos direitos de todos. Quando se fala em estupro já se supõe uma mulher estuprada, mas os homens e meninos também são estuprados e acabam sendo mais ridicularizados que as mulheres. Sofrem em silêncio.
Homens também sofrem violência física de suas companheiras (tive uma vizinha q era campeã de judô e quebrou o braço do marido) e também viram alvo de piadas por isso.
Ninguém deve sofrer violências e humilhações e quem as pratica deve ser punido. As leis existem. Infelizmente, a lentidão do sistema judiciário e outras mazelas da sociedade brasileira impedem q a justiça seja efetiva em todos os casos. Mas já noto uma grande mudança em relação ao que era uns 20 anos atrás. As pessoas não aceitam mais a violência e o preconceito como algo normal. Já é um passo!
Luna, concordo contigo (tanto aqui quanto no FB). Já falei noutro post da Ana sobre os "coitadinhos". E lembrei de um papo q tive com amigas sobre homens com testosterona! rsrsrs Nisso eu quero realmente q eles sejam diferentes das mulheres!
Beijocas!

Karlinha Ferreira disse...

Texto perfeito, esclarecedor e digno.

Apoiadíssima...

E agora estou te seguindo...

Beijo...

Jéssica Costa disse...

Bom Ana, entendo quando dizes que não gosta da rotulação Feminista. Acredito que com o passar dos anos os reais significados do termo acabam se perdendo ou sendo ressignificados, às vezes de forma erronea, e acabam criando um esteriótipo deturpado. Porém feminismo nada mas é, ou melhor, quer dizer, defeza pela igualdade de direitos dos sexos, e isso inclui os homens tbm, em seu âmago o feminismo seria uma luta por uma sociedade justa em que as situações de cada pessoa não seriam condicionadas por um fator biológico, que é o sexo.
Assim, me defino feminista, mas entendo que repudie nomeclanturas de aglomeração.
Embora não concordando muito com o seu ponto de vista, o entendo pois muitas vezes me surpreendo com atitudes desviadas de pessoas que se dizem parte de uma grupo seja ele qual for e acabam por cometer atos que vão contra todos os principios do grupo que participam fazendo com que os seus companheiros sejam julgados por atitudes suas.
Mas enfim, sem me alongar mais, só gostaria de dizer que não importa a forma que se lute contra uma injustiça, se é participando de um grupo em especícico, ou se é aderindo a causas em especial, o importente é nunca esquecer de que se não combatermos coisas como o preconceito, a injustiça, o racismo e o autoritarismo jamais construiremois uma sociedade justa, (como diz a minha mãe eu não vou conseguir mudar o mundo) mas acho que devo fazer todo o possível.
Para ilustrar mando uma frase do Che Guevara.
Att Jéssica

"Acima de tudo procurem sentir no mais profundo de vocês qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. É a mais bela qualidade de um revolucionário."
Che

Jess. disse...

Lembro de ter concordado com o texto na época, mas sou tão procrastinadora (ai ai). As pessoas tem é muito que entender que enquanto haver rótulos, vai haver preconceito. Radicalismo é uma merda, vamos convir. Como a Luna disse, lutar por direitos iguais à essa geração é regredir. Se achar melhor "por ser mulher" é regredir. Se isso me faz "machista" (bem entre aspas mesmo), tudo bem. Antes de ser mulher eu sou humana. Fim de papo.

Christian V. Louis disse...

Desculpe invadir um espaço exclusivamente feminino aqui, mas vi a "chamada" deste post no twitter da Luna e nem sabia do que se tratava, apenas li seu nome e gosto muito do que escreve.
Não sou a favor nem do machismo e nem do feminismo e sim, algo que deveria ser chamado de "igualismo" ahah, sei lá...
Em verdade Ana, é que não adianta, quando tocamos em temas que são considerados polêmicos (eu faço muito isso no Lisérgicos) acabamos por ser sempre tomados por uma avalanche de estupidez.
Eu, particularmente, resolvi que não adianta "desenhar" certos posts para certas pessoas. Não me explico mais. Não adianta e cansa. Cada um não consegue ver além do próprio umbigo, as pessoas só querem ver o que elas querem, não importa o quanto explique, o quanto desenhe...

Allyne Araújo disse...

um texto quando ele é bom, tem que além de provocar reflexões gerar discussões, choques de opiniões e contradições, pois é a partir disso q uma nova tese é gerada e novas sínteses concluídas. No seu lugar Nana , eu nao teria essa paciência em esclarecer nada, nem de explicar. Seu texto tava claro, suas intenções davam a perceber q falavas da atualidade.. Se o povo nao entendeu problema. Bjo e ate!

Erica Ferro disse...

Eh bien, li ambos os posts. Da primeira vez, discordei de certos pontos e os comentei. Farei o mesmo desta vez.

“Quis, simplesmente, dizer que boa parcela do que se taxa hoje como preconceito é fruto mais da suposta vítima do que uma intenção de ofensa de outra parte.”

Ainda permaneço na ideia de que ainda há muitas pessoas que agem preconceituosamente por pura maldade, pelo puro prazer em ofender, e isso independe da vítima. O que eu quero dizer é que alguns, não importa a posição que o ofendido tome, continuam a incomodar, a importunar, baseados numa ideia de superioridade, que, claro, é falha.
Há, obviamente, aqueles que maximizam certas brincadeiras e as denomina, erroneamente, como preconceito. Esses não enxergam a linha tênue que divide anedotas de reais ofensas. Entretanto, não consigo ver esse segundo caso como sendo boa parcela do que seja preconceito nos dias de hoje.

(...)

Para finalizar, quero discorrer sobre “bandeiras”.
Seria lindo se nós conseguíssemos nos enxergar como de fato somos: apesar das diferenças (ideológicas, físicas ou políticas), somos todos humanos. Assim, haveria uma só bandeira: a dos seres humanos. Humanos unidos para exterminar injustiças humanas. Nada de divisões, apenas unidade. Porém, isso é uma visão bem utópica.
Não sei se isso soa pessimista, mas infelizmente nós nunca teremos esse desejo de sermos um. É tão mais fácil criar grupos, cada um lutando em prol de x coisa. E assim é que se começa uma guerra de ideias. Esse é o mundo no qual vivemos.
Já fui mais extrema nessa coisa de levantar bandeiras. Não me defino como x coisa, mas sei que pertenço a uma minoria ainda oprimida, ainda esquecida à margem da sociedade. É claro que houve melhorias significativas na relação pessoa com deficiência & pessoa sem deficiência. É fato que hoje somos mais respeitados como seres humanos e como cidadãos. Mas há muito o que melhorar ainda, muito mesmo. E lutar por isso não me faz prisioneira de uma só ideologia.
Há algo muito claro e definido em minha mente: a minha deficiência não pode se sobrepor à minha humanidade. Antes de ser deficiente, sou humana. E sendo humana, posso e devo atentar para os diversos problemas que assolam o mundo e tentar solucioná-los.
A minha guerra é, e sempre será, contra o que acho iníquo.

Seerig, essa postagem foi desnecessária. Acho que todas as explicações contidas nesse post estavam no texto original; explicitamente ou nas entrelinhas. Bastava ler e interpretar.
Mas, de qualquer maneira, belo texto. A frase final foi ótima.

Rogério Soares disse...

Ana,

Permitam-me uma opinião masculina nessa discussão. Ando remuendo há algum tempo sobre esses assuntos.

Penso exatamente como você Ana. Concordo com cada linha do seu texto (não li o texto anterior, ainda...). A sexualização, a racialização, a partidarização e todas essas estrovengas são faces de um processo ainda não resolvido de reconhecimento do outro como parte integrante de nós mesmos. O que impera nas relações humanas ainda é o desrespeito. É inaceitável qualquer tipo de agressão às mulheres ou a qualquer pessoa, esses fatos devem ser combatidos. Agora fazer disso uma bandeira sectária é ridículo. O efeito de tudo isso é a criação de mais violência e incompreensão que gera atitudes fanáticas e impossibilita a aproximação das pessoas, mesmo diante de suas diferenças.

Ana você é uma menina muito madura. Adoro os seus textos e me encantam as suas ideias. Parabéns.

Tita obrigado por me apresentar esse mundo maravilhoso de discussões... Abraços,